O governador em exercício do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza (MDB), classificou o tarifaço dos EUA ao Brasil como um “embargo” em alguns casos e defendeu que as negociações com os norte-americanos sejam conduzidas com pragmatismo, sem interferências ideológicas. Em entrevista à Acústica FM, Souza aborda os impactos da medida, as ações do governo estadual e a importância da diplomacia.

Acústica FM – Como o senhor recebe a confirmação do tarifaço por parte dos Estados Unidos, considerando que o governo do RS já havia anunciado medidas para mitigar os efeitos?
Gabriel Souza – Estamos extremamente preocupados. Mesmo com as exceções previstas no decreto e nas ordens executivas do presidente Trump, divulgadas ontem, o Rio Grande do Sul será fortemente impactado. Os nossos produtos, em grande parte, não foram contemplados nessas exceções. Há algum alívio parcial para o setor madeireiro, com a exclusão de madeira in natura, mas ainda assim, produtos beneficiados seguirão sendo tarifados.
Setores como o de armas, tabaco, móveis, calçados e maquinário continuam sob impacto direto. Não temos dúvida de que o estado sofrerá prejuízos econômicos consideráveis. Por isso, defendemos que esse assunto seja tratado com seriedade, profissionalismo e diplomacia – sem ideologias.
O governador Eduardo Leite já anunciou uma linha de crédito de R$ 100 milhões, via BRDE, com condições competitivas, incluindo um ano de carência. É um passo importante para mitigar os impactos, mas sabemos que é insuficiente. O Estado não tem como, sozinho, oferecer todo o suporte necessário. Por isso, o Governo Federal também precisa atuar – tanto diplomaticamente quanto com políticas econômicas que apoiem os setores afetados.
Acústica FM – O senhor pode citar um exemplo prático de impacto dessas tarifas no RS?
Gabriel Souza – Um caso emblemático é o da indústria de armas Taurus, em São Leopoldo. Visitei a empresa ontem. Ela emprega 15 mil pessoas e exporta cerca de 85% da sua produção para os Estados Unidos. Lá, 60% das armas leves civis são da marca Taurus. Agora, com uma tarifa de 50%, a empresa está na prática embargada – não tem como competir nesse mercado. Isso mostra a gravidade da situação. Precisamos conversar muito e buscar caminhos para reduzir essas tarifas. Mas só conseguiremos isso se deixarmos as ideologias de lado.
Acústica FM – O senhor entende que o governo estadual chegou ao limite com os R$ 100 milhões anunciados? Há possibilidade de ampliação desse crédito?
Gabriel Souza – Não é uma questão de limite. Estamos recebendo os setores individualmente, porque cada caso é um caso. Algumas empresas, por exemplo, pediram antecipação de créditos de ICMS. Estamos analisando tudo com cuidado. Agora é hora de proteger os empregos no Rio Grande do Sul. Não se trata de defender lado A ou B, direita ou esquerda, mas sim os gaúchos.
O tamanho do problema ultrapassa a capacidade de qualquer estado brasileiro – nem mesmo São Paulo teria condições de absorver o impacto sozinho. Por isso, o Governo Federal precisa agir. São duas frentes: a diplomática, com negociações junto à chancelaria, embaixada e, eventualmente, o próprio presidente da República, e a econômica, com medidas que aliviem as perdas das empresas brasileiras.
Acústica FM – O governo estadual aponta erros por parte do governo federal? O senhor considera que o discurso do presidente Lula tem sido inadequado? O Planalto argumenta que Trump não quer negociar com Lula. Qual é a posição do Piratini?
Gabriel Souza – Sinceramente, entendo que, no tocante à política externa, quanto menos ideologização, melhor. Defendo uma política externa pragmática, voltada a resultados. O objetivo deve ser evitar a perda de mercados. De um lado, temos uma guinada ideológica na política externa, com aproximação a países como Irã e Venezuela, que não compartilham dos valores da democracia liberal. De outro, vemos brasileiros nos Estados Unidos trabalhando contra o Brasil, buscando pressionar o país para interesses próprios.
No linguajar popular, “juntou a fome com a vontade de comer”. Enquanto uns pensam na esquerda e outros na direita, nós precisamos pensar no Brasil e no Rio Grande do Sul. Nosso papel aqui é proteger os empregos dos gaúchos. Se conseguirmos tirar a ideologia do caminho e tratar o tema com seriedade, poderemos alcançar avanços.




