A segurança do produtor rural na Costa Doce, uma área essencial para o agronegócio e a orizicultura do Rio Grande do Sul, alcançou um novo patamar de eficiência. A Delegacia Especializada na Repressão aos Crimes Rurais e Abigeato (Decrab) de Camaquã, ativa desde setembro de 2019, consolidou sua atuação e apresenta resultados robustos no combate à criminalidade no campo. Em entrevista concedida ao programa Redação SulTV, o comissário Márcio Campo e a inspetora Raphaela Franceschi detalharam o trabalho da unidade, que se concentra em desarticular organizações criminosas e quadrilhas especializadas.

O foco no crime organizado e a redução dos furtos em Camaquã e região
A Decrab de Camaquã possui uma área de abrangência que se estende por 39 municípios, concentrando seus esforços na repressão a grupos organizados, e não em pequenos delitos. Dados da Polícia Civil comprovam a mudança de cenário. Em 2016, ano considerado o pico dos crimes, o Rio Grande do Sul registrou 10.478 ocorrências de abigeato (furto de gado). Até o final de outubro de 2025, no entanto, o total de casos no estado despencou para 2.664, o que representa uma redução significativa de 74,5% nos registros desse tipo de crime.
Receba todas as notícias da Acústica no seu WhatsApp tocando aqui!
O impacto da atuação especializada na região local é ainda mais notável. Na 29ª Região Policial, que engloba Camaquã, São Lourenço do Sul e Tapes, a queda no número de furtos de gado foi de 66% entre 2020 e 2025, passando de 149 para 51 ocorrências. Especificamente no município de Camaquã, a diminuição atingiu um impressionante índice de 70% no mesmo período, caindo de 36 para apenas 11 registros, o que atesta a eficácia da estratégia de policiamento focado.
Novas Fraudes e a Atualização dos Criminosos
Apesar do sucesso contra o furto tradicional de animais, a polícia enfrenta o surgimento de novas modalidades de crimes. Segundo o comissário Márcio Campos, os criminosos exploram agora as falhas do sistema, como a falta de obrigatoriedade de emplacamento e a facilidade para obter documentação de tratores e outros equipamentos. Esse cenário propiciou um aumento de estelionatos e fraudes a partir de 2020, envolvendo a negociação irregular de maquinários agrícolas, insumos como sementes e fertilizantes.
A inspetora Raphaela Franceschi destaca que a ação dos criminosos é dinâmica, exigindo que a pequena equipe da Decrab — apenas seis policiais para atender toda a macrorregião — invista continuamente em trabalho de campo, inteligência e especialização tecnológica. A necessidade de atuar diretamente no ambiente rural, o que muitas vezes exige o rastreamento do gado furtado, demanda equipamentos específicos e um programa de treinamento constante para os agentes de segurança.
A Questão da Saúde Pública e Segurança Alimentar
Uma frente de combate considerada crucial pela Decrab é a defesa da saúde pública e da segurança alimentar da população. Investigações realizadas pela delegacia revelaram que a carne proveniente do abigeato, por não passar por nenhuma fiscalização sanitária, é canalizada para o comércio ilegal e utilizada para abastecer açougues e lancherias clandestinos. Recentemente, operações realizadas em Capão do Leão e Pelotas identificaram abates clandestinos de equinos, cuja carne era misturada à bovina e vendida para o consumo humano, ressaltando o grande risco sanitário da aquisição de produtos de origem duvidosa.
Para fortalecer ainda mais essa atuação, foi criada em 2025 a Divisão de Investigação de Crimes Rurais e Abigeato (Decrae), com a função de coordenar e prover apoio logístico, equipamentos e treinamento tático — como o Atendimento Pré-Hospitalar Tático (APH Tático) — às seis unidades da Decrab em atividade no estado. A expectativa é que o número de delegacias especializadas cresça para nove no próximo ano, com a inauguração de novas unidades em Rio Grande, Santa Maria e Vacaria, garantindo uma dedicação uniforme no combate ao crime rural em todo o Rio Grande do Sul.




