Os recorrentes alagamentos em Camaquã e em outras cidades do Brasil evidenciam a necessidade de abandonar soluções pontuais e adotar políticas públicas permanentes, baseadas em planejamento urbano de longo prazo e resiliência climática. A avaliação é do professor Marcelo Dutra, doutor em ciência, docente de ecologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e integrante de projetos de sustentabilidade no IFSul.

Em entrevista à Rádio Acústica FM nesta quinta-feira (18), o especialista avaliou que os eventos climáticos extremos intensificados nos últimos anos deixaram claro que os municípios precisam planejar a cidade para as próximas décadas, e não apenas reagir a cada episódio de chuva intensa.
Planejamento urbano precisa ir além de mandatos
Para Dutra, a adaptação climática exige decisões estruturais, com impacto no curto, médio e longo prazo. Entre elas, a revisão dos Planos Diretores, considerando a nova realidade climática e o mapeamento das áreas mais vulneráveis a alagamentos.
O professor defende que as estratégias sejam sustentadas por estudos científicos e incorporadas de forma definitiva à legislação urbana. “Nada é impossível do ponto de vista da adaptação, mas exige recursos e planejamento contínuo. É um esforço que impacta diretamente a vida das pessoas e a economia”, disse.
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Cidade-esponja depende de ações integradas
O professor explicou o conceito de “cidade-esponja”, que Camaquã pretende aplicar de forma experimental. A proposta não se limita a intervenções isoladas, mas a um conjunto de medidas distribuídas por zonas da cidade, de acordo com os riscos identificados.
A estratégia busca recuperar a capacidade do solo urbano de absorver parte da água da chuva, reduzindo a sobrecarga da drenagem pluvial. Para isso, é necessário diminuir a impermeabilização excessiva, ampliar áreas verdes e criar estruturas de retenção temporária.
“A cidade-esponja precisa ser pensada como política pública permanente”, afirmou Dutra.
Menos impermeabilização e mais critérios no uso do solo
Entre as medidas apontadas pelo especialista estão regras mais rígidas para áreas suscetíveis a alagamentos. Nessas regiões, o Plano Diretor deve limitar alterações de cota do terreno e a impermeabilização de grandes superfícies.
Em empreendimentos imobiliários, Dutra defende a adoção de projetos com verticalização, drenagem garantida por vegetação e estruturas como pulmões d’água, que permitem a retenção rápida do excesso de chuva. “O desafio é tornar o mais natural possível aquilo que já foi artificializado”, afirmou.
Pequenas medidas contínuas superam soluções isoladas
O professor destacou que políticas de resiliência climática não dependem de uma única grande obra. Segundo Dutra, um conjunto de pequenas intervenções, aplicadas de forma contínua ao longo dos anos, tende a produzir mais resultados do que soluções caras e pontuais.
“Não se trata de barrar o desenvolvimento, mas de planejar para evitar prejuízos maiores no futuro”, disse. No meio rural, segundo o especialista, práticas de conservação do solo já são adotadas de forma mais consistente, justamente por seus efeitos diretos na produtividade e na renda.
Município reconhece necessidade de soluções duradouras
A Prefeitura de Camaquã pretende adotar, a partir de 2026, uma das estratégias associadas ao modelo de cidade-esponja, com a adaptação de duas vias para retardar o escoamento da água da chuva. O sistema inclui drenos laterais com pedra graduada, tubos perfurados e tampas com orifícios.
Em entrevista à Rádio Acústica FM, o prefeito Abner Dillmann (PSDB) reconheceu que as mudanças climáticas impõem um novo padrão de planejamento urbano. Segundo Dillmann, ações pontuais podem ajudar, mas não substituem a execução integral do estudo hidrológico do município.

Bacias de contenção fazem parte da visão de longo prazo
O estudo hidrológico de Camaquã prevê a construção de ao menos cinco bacias de contenção em pontos estratégicos da cidade. Essas estruturas armazenam temporariamente grandes volumes de água da chuva, reduzem a velocidade do escoamento e liberam o fluxo de forma controlada.
De acordo com o prefeito, o efeito dessas obras é sistêmico. Uma bacia construída em um bairro pode reduzir alagamentos em outras regiões, ao retardar o volume de água que chega à rede de drenagem e aos cursos d’água urbanos. A execução do projeto barra no financeiro. A estimativa é que cada bacia custe de R$ 6 a R$ 10 milhões.

Experiências externas reforçam planejamento permanente
Cidades brasileiras como Juiz de Fora, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília já utilizam bacias de contenção e sistemas integrados de drenagem como políticas permanentes de prevenção a enchentes. Em Juiz de Fora, um dos reservatórios previstos terá capacidade para quase 50 mil metros cúbicos de água e será integrado a uma área de lazer.
Para especialistas, esses exemplos mostram que enfrentar os impactos das mudanças climáticas exige continuidade administrativa, decisões técnicas e planejamento urbano voltado para décadas, não apenas para o próximo período de chuvas.
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