crise mundial

EUA pretendem controlar petróleo venezuelano

Trump afirma que empresa americana vai administrar a indústria petrolífera venezuelana após ofensiva militar

Os Estados Unidos pretendem assumir o controle da indústria de petróleo da Venezuela por meio de uma empresa americana, após o ataque militar lançado contra o país e a captura do presidente Nicolás Maduro. O anúncio foi feito neste sábado (3) pelo presidente dos EUA, Donald Trump, durante entrevista coletiva em que detalhou a ofensiva contra Caracas e outras regiões venezuelanas.

EUA pretendem controlar petróleo venezuelano. Foto: Reprodção/Twitter.
EUA pretendem controlar petróleo venezuelano. Foto: Reprodção/Twitter.

Segundo Trump, “uma grande empresa” dos Estados Unidos será responsável por administrar o setor petrolífero venezuelano com o objetivo de “tornar a exploração mais eficiente”. O presidente não informou o nome da companhia nem apresentou prazos ou detalhes operacionais. Atualmente, a Chevron é a única grande petrolífera americana com atuação na Venezuela.

Trump afirmou que a indústria de petróleo do país sul-americano é “ineficiente” e classificou a gestão atual como “uma bagunça”. Para o presidente norte-americano, a intervenção americana seria necessária para reorganizar a produção e garantir o funcionamento do setor.

PDVSA e o histórico de nacionalização

A indústria petrolífera da Venezuela é administrada pelo Estado por meio da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.). Além da estatal, a extração ocorre por meio de joint ventures e contratos de serviços com empresas estrangeiras de países como China, Rússia, França, Espanha e Itália.

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Em 2007, o governo venezuelano nacionalizou ativos do setor e passou a exigir controle majoritário da PDVSA sobre as operações. Empresas que não aceitaram as condições deixaram o país. Chevron, Statoil e BP concordaram com o novo modelo e mantiveram participações minoritárias em projetos específicos.

Chevron e as sanções dos EUA

A Chevron é hoje a única grande petrolífera americana presente na Venezuela. Em 2022, durante o governo Joe Biden, a empresa recebeu uma licença especial para operar no país apesar das sanções econômicas impostas a Caracas. A autorização foi posteriormente prorrogada pela administração Trump, segundo informações do governo americano.

Trump destacou que os Estados Unidos “vão se envolver diretamente” com a indústria de petróleo venezuelana, sem esclarecer se a Chevron continuará como operadora ou se outra empresa assumirá o comando do setor.

Ataque militar e captura de Maduro

O anúncio ocorre horas após um ataque militar de grande escala contra a Venezuela. Segundo a Casa Branca, a ofensiva começou na madrugada deste sábado (3) e atingiu Caracas e os estados de Miranda, Aragua e La Guaira. O governo americano informou que a operação incluiu bombardeios a alvos estratégicos.

Trump declarou que Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores foram presos e estariam a bordo do navio USS Iwo Jima. O presidente dos EUA divulgou em suas redes sociais uma imagem em que Maduro aparece vendado, usando óculos escuros, vestindo moletom e aparentemente algemado.

Maduro é exposto preso, vendado e possivelmente algemado. Foto: Reprodução.
Maduro é exposto preso, vendado e possivelmente algemado. Foto: Reprodução.

Em pronunciamento ao vivo, Trump classificou a ação como um “sucesso” e afirmou que o objetivo foi combater o narcotráfico e organizações criminosas ligadas ao governo venezuelano. Disse ainda que os Estados Unidos pretendem administrar o país de forma temporária até uma “transição justa”.

Reservas de petróleo e importância econômica

A Venezuela possui 303 bilhões de barris de petróleo comprovados, segundo o Anuário Estatístico da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) 2025. O volume representa cerca de 18% das reservas globais e coloca o país à frente de Arábia Saudita, Canadá e Irã no ranking mundial.

A maior parte dessas reservas está na Faixa Petrolífera do Orinoco, composta por petróleo extra-pesado, que exige tecnologia avançada para exploração e refino. O petróleo é a base da economia venezuelana, responsável pela maior parte das exportações e da arrecadação fiscal.

Impactos geopolíticos e críticas

Analistas avaliam que o controle do petróleo venezuelano teria efeitos diretos sobre aliados do regime chavista. Cuba, por exemplo, depende do fornecimento de petróleo da Venezuela e seria diretamente afetada por uma mudança no comando do setor.

Especialistas também recordam intervenções anteriores dos Estados Unidos em países como Vietnã, Iraque e Afeganistão. Segundo essas análises, a ausência de um plano claro para o período pós-Maduro aumenta o risco de instabilidade prolongada na Venezuela.

No Brasil, o governo federal e setores da oposição venezuelana não reconhecem a legitimidade do governo de Maduro. Ainda assim, especialistas em relações internacionais veem a ação americana como uma violação da soberania nacional da Venezuela, o que pode gerar novos conflitos diplomáticos na região.

Venezuela denuncia “interesse colonialista” dos EUA

O governo da Venezuela repudiou e denunciou, perante a comunidade internacional, a “gravíssima agressão militar perpetrada pelos Estados Unidos” contra o território e a população venezuelanos, em comunicado oficial, neste sábado (3). O país afirma que essa é uma tentativa de impor uma guerra colonial e que o objetivo é se apoderar do petróleo e minerais venezuelanos.

“Este ato constitui uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas, especialmente de seus artigos 1 e 2, que consagram o respeito à soberania, à igualdade jurídica dos Estados e à proibição do uso da força. Tal agressão ameaça a paz e a estabilidade internacional, concretamente da América Latina e do Caribe, e coloca em grave risco a vida de milhões de pessoas”, diz o comunicado.

Segundo as autoridades do país, foram atingidas localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. A diplomacia venezuelana, diz o texto, apresentará as denúncias ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao secretário-geral da ONU, António Guterres, à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e ao Movimento dos Países não Alinhados (MNOAL), exigindo a condenação e a prestação de contas do governo dos Estados Unidos.