A Refinaria Riograndense, em Rio Grande, deu início a uma das maiores transformações de sua história. Fundada em 1937 como a primeira refinaria de petróleo do País, a empresa começa agora a operar como biorrefinaria, com foco na produção de combustíveis renováveis a partir de matérias-primas vegetais.

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A mudança foi detalhada pelo diretor da empresa, Flávio Mingorance de Souza, em entrevista concedida à Rádio Acústica FM após reunião em São Lourenço do Sul com lideranças regionais. Segundo ele, a conversão marca um novo ciclo industrial no Rio Grande do Sul, com impacto direto no agronegócio, na geração de empregos e na economia regional.
Nesta primeira fase, a refinaria passa a substituir o petróleo por óleos vegetais e óleos residuais, como óleo de soja, óleo de milho e subprodutos da produção de etanol. O processo ocorre em uma unidade de craqueamento catalítico (FCC), que operará com carga 100% renovável, algo inédito no mundo.
“Seremos a primeira unidade do planeta a operar um FCC totalmente renovável”, afirmou Mingorance. “É um marco técnico e industrial.”
A segunda fase do projeto, ainda em análise, prevê a construção de uma planta dedicada à produção de diesel renovável e SAF (combustível sustentável de aviação). O investimento estimado é de US$ 1 bilhão, com decisão prevista para o primeiro semestre deste ano. Se aprovado, o complexo deve entrar em operação até o fim de 2028.
Durante as obras, o pico de empregos pode chegar a 4 mil trabalhadores. Na fase operacional, a planta deve empregar entre 400 e 500 profissionais diretos. O impacto indireto, sobretudo no campo, tende a ser ainda maior.
A Riograndense aposta no desenvolvimento de culturas de inverno, como canola, carinata e camelina, além do uso de gorduras animais. Essas matérias-primas podem abrir uma nova frente de renda para produtores da Metade Sul do Estado, região que busca alternativas à produção tradicional.
A carinata, em especial, tem alta aceitação no mercado europeu por não competir com a produção de alimentos e apresentar baixa intensidade de carbono. Segundo Mingorance, o Rio Grande do Sul reúne condições ideais para expandir essa cultura na entressafra.
“Hoje, muitas sementes saem do Brasil para virar combustível na Europa, e depois importamos o produto pronto, mais caro. Não faz sentido”, disse. “Precisamos agregar valor aqui.”
A localização da refinaria, próxima ao Porto de Rio Grande, reforça o potencial do projeto. A região já recebe novos investimentos, como a retomada da construção naval e aportes industriais ligados à celulose e à logística.
Para a empresa, a transição para o biorrefino também garante a perenidade do negócio. Enquanto refinaria de petróleo, a unidade era considerada de pequena escala. Como biorrefinaria, passa a figurar entre as maiores do mundo no segmento.
“É uma decisão estratégica para os próximos 10, 20 anos”, afirmou Mingonrace. “Estamos alinhados à vocação do Brasil em biocombustíveis.”
A mudança altera o papel da indústria na economia local. Antes concentrada no refino e na arrecadação de impostos, a refinaria passa a irradiar demanda para o campo, cooperativas, agroindústrias e centros de pesquisa.
“É um modelo completamente diferente”, resumiu o diretor. “Uma indústria que conecta energia, agricultura e desenvolvimento regional.”



