Uma megaoperação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, deflagrada nesta segunda-feira (29), cumpre 57 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva. A ação mira uma organização criminosa acusada de fraudar licitações e fornecer remédios contra o câncer falsificados, custeados com dinheiro público, para pacientes na Fronteira Oeste do Estado. A ofensiva se estende por outros quatro estados da federação.

A investigação, conduzida pela Delegacia de Polícia de São Gabriel e batizada de Operação Placebo, revelou um cenário alarmante: até o momento, foram identificadas 39 vítimas do esquema, sendo que sete delas morreram no decorrer do tratamento.
O Cabeça do Esquema e o Uso de “Laranjas”
O principal articulador do grupo, segundo as autoridades, é o empresário Lisandro Henriques Hermes, preso preventivamente em São Gabriel. A polícia aponta que ele controlava, de forma direta ou por meio de “laranjas” (sócios formais), empresas de fachada como a Licifarma e a LH Medicamentos para monopolizar e fraudar concorrências judiciais. Juntas, as empresas ligadas ao suspeito venceram 12 certames.
Em sua defesa, o empresário negou qualquer envolvimento com as fraudes, refutou ligação com os advogados e o médico investigados e afirmou desconhecer a falsificação. No entanto, em posse de Lisandro, os agentes apreenderam dezenas de caixas de remédios sem identificação e suplementos. O suspeito alegou que o material era refugo de controle de qualidade de uma fábrica, mas não explicou o motivo de os produtos estarem com ele e não terem sido descartados pela indústria.
Receba todas as notícias da Acústica no seu WhatsApp tocando aqui!
Como Funcionava a Engrenagem Criminosa de medicamentos falsos contra o câncer
O esquema era dividido em três núcleos principais que agiam em sinergia:
-
Núcleo Médico: Um oncologista era responsável por emitir os laudos médicos que embasavam as ações judiciais. Ele captava os pacientes com câncer e fornecia cartões de advogados parceiros quando o Estado não dispunha do medicamento nas farmácias públicas.
-
Núcleo Jurídico: Composto por três advogados, o setor acionava o Judiciário para liberação de verbas públicas e direcionava os orçamentos para o núcleo empresarial.
-
Núcleo Empresarial: Composto pelas empresas de fachada do esquema, que simulavam concorrência e ganhavam os contratos para fornecer os medicamentos — que eram entregues parcialmente ou falsificados.
Por determinação judicial, o médico e os três advogados tiveram o exercício profissional suspenso.
“Eles têm claramente ali um médico que é o que capta os clientes. O núcleo jurídico aciona o empresarial para fraudar a concorrência, ou seja, são só as farmácias ligadas a eles que ganham”, detalhou o delegado Daniel Severo.
Alerta da Anvisa e Erros de Grafia na Embalagem
As investigações começaram após uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel desconfiar de frascos do medicamento Enhertu (trastuzumabe deruxtecana), voltado ao tratamento de câncer de mama avançado. A embalagem apresentava erros grosseiros de grafia.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já havia proibido a comercialização do lote 416466 do Enhertu em fevereiro de 2026, após a fabricante, Daiichi Sankyo, relatar frascos adulterados com tampas metálicas pintadas de amarelo, divergindo do padrão original que possui tampa de acabamento plástico.
Manifestação das Entidades e Laboratório especializado em câncer
Em nota oficial, a Anvisa reforçou que determinou a imediata apreensão do lote 416466 e orientou hospitais, clínicas e distribuidores a interromperem o uso de unidades que demonstrem alterações físicas nas embalagens, notificando imediatamente os órgãos competentes.
A fabricante Daiichi Sankyo Brasil informou que identificou indícios de falsificação em lotes específicos no mercado nacional e que prontamente acionou as autoridades. A farmacêutica garantiu que não há falhas na produção oficial e orienta que as instituições adquiram os medicamentos exclusivamente por meio de distribuidores homologados listados em seu site oficial, disponibilizando o e-mail [email protected] para denúncias.





