A analista da Promotoria de Enfrentamento à Violência Extrema e ECA Digital do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Ana Solari, concedeu entrevista à Rádio Acústica FM na manhã desta quarta-feira (26) e abordou os riscos da radicalização de crianças e adolescentes no ambiente digital. O tema foi discutido após uma palestra realizada no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) de Camaquã, voltada a pais e responsáveis.

Durante a conversa, Ana destacou que o fenômeno da radicalização é uma realidade mundial e que os adultos precisam compreender melhor o universo digital frequentado pelos jovens. Segundo ela, muitos pais acreditam que os filhos estão seguros apenas por estarem dentro de casa, mas acabam desconhecendo os ambientes virtuais que frequentam e as pessoas com quem interagem pela internet.
A especialista explicou que o Ministério Público desenvolve os programas “Sinais” e “Eu Enxergo os Sinais”, por meio do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (NUPVE), com ações em diversas regiões do Estado. Conforme Ana, mais de 30 mil pessoas já foram capacitadas e o trabalho alcançou mais de dois terços dos municípios gaúchos.
De acordo com a analista, a radicalização ocorre quando jovens em processo de formação passam a adotar ideologias baseadas no ódio, perdendo gradativamente o senso crítico e o vínculo com sua própria identidade. Ela alertou que a necessidade de pertencimento, comum na adolescência, pode ser explorada por grupos que disseminam conteúdos violentos e extremistas.
Ana Solari também apresentou números que demonstram a dimensão do problema no Rio Grande do Sul. Segundo ela, o Ministério Público analisou mais de 1.200 casos relacionados à violência extrema nos últimos dois anos. Apenas em 2026, até o mês de agosto, foram registrados 263 casos em 126 cidades gaúchas. O trabalho de investigação já resultou em cooperações internacionais e na prevenção de atentados ligados a processos de radicalização.
Outro ponto abordado foi a influência de jogos eletrônicos, redes sociais e conteúdos violentos consumidos por crianças e adolescentes. A analista ressaltou que os jogos não devem ser demonizados, mas alertou que muitos ambientes virtuais são utilizados por pessoas que buscam atrair jovens para grupos extremistas. Segundo ela, a combinação de algoritmos, conteúdos violentos e longos períodos de exposição pode favorecer processos de radicalização.
Durante a entrevista, Ana também chamou atenção para o crescimento de conteúdos que glorificam autores de ataques e atos violentos. Ela afirmou que vídeos editados, conhecidos como “edits”, e materiais produzidos com auxílio de inteligência artificial podem servir para promover e valorizar crimes, tornando-se sinais de alerta para pais e educadores.
A especialista ainda destacou a preocupação com o acesso precoce à pornografia infantil e ao compartilhamento desse tipo de conteúdo entre adolescentes. Segundo ela, investigações têm identificado jovens envolvidos na comercialização de material ilegal, muitas vezes utilizando moedas virtuais de jogos online como forma de pagamento.
Ao final, Ana Solari reforçou a importância da participação ativa das famílias na vida digital dos filhos. Para ela, acompanhar os conteúdos consumidos, conversar sobre os ambientes virtuais frequentados e observar mudanças de comportamento são medidas fundamentais para prevenir situações de violência extrema e proteger crianças e adolescentes dos riscos presentes na internet.



