A crise no setor arrozeiro preocupa produtores de Camaquã e da região. Em entrevista à Rádio Acústica FM nesta terça-feira (13), o presidente da Associação dos Arrozeiros de Camaquã, José Carlos Gross, afirmou que o preço pago atualmente pelo arroz está muito abaixo do custo de produção, o que compromete a viabilidade econômica da atividade e pode gerar impactos diretos no campo e na cidade ainda neste ano.

Segundo Gross, a crise é resultado de um cenário internacional de alta produção. “Todo mundo produziu bem, no mundo todo. A Índia, que fazia tempo que não entrava no mercado internacional, produziu bem e voltou a exportar, também trazendo impactos ao mercado internacional”. De acordo com o presidente da associação, esse aumento da oferta pressionou os preços e afetou diretamente o mercado brasileiro.
Custo de produção supera valor pago pela saca
Na região de Camaquã, o custo de produção do arroz varia entre R$ 80 e R$ 90 por saca de 50 quilos. No entanto, os produtores estão recebendo cerca de R$ 55,00 pela mesma quantidade. Para o presidente da associação, o principal problema está na diferença entre custo e preço de venda. “O problema não é vender a R$ 50,00, o problema é o custo ser mais alto”, afirmou.
Gross avaliou que o setor já vinha fragilizado nos últimos anos devido aos efeitos da crise climática, o que provocou uma descapitalização dos produtores. “O setor sofreu uma ‘descapitalização’ nos últimos anos”, destacou.
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Ajustes na produção e foco na exportação
Diante do cenário adverso, o representante do setor defende mudanças estruturais. Uma das principais medidas apontadas é o aumento das exportações. A estimativa é de que o Brasil precise exportar cerca de 2 milhões de toneladas de arroz na safra 2026/27. Para isso, segundo Gross, o produtor terá de se adaptar à realidade de destinar entre 10% e 20% da produção ao mercado externo, reduzindo o estoque de passagem.
Outra adequação considerada necessária é a redução da área plantada. No passado, o Rio Grande do Sul chegou a cultivar 1,2 milhão de hectares de arroz. Esse número caiu para cerca de 930 mil hectares na safra mais recente. Para a próxima safra, a projeção é reduzir ainda mais, para aproximadamente 800 mil hectares, como forma de diminuir a oferta e tentar reequilibrar os preços.
Risco de inadimplência e demissões
O impacto econômico da crise já preocupa os produtores. “Vão ter produtores que não vão conseguir pagar as contas este ano”, afirmou Gross. Segundo ele, apesar das dificuldades enfrentadas no ano passado, a maioria dos arrozeiros ainda conseguiu ajustar as finanças, o que pode não se repetir nesta safra.
O presidente da associação alertou que os reflexos não ficarão restritos ao meio rural. “A crise vai chegar na cidade e lamentavelmente vamos demitir gente”, disse, ao mencionar possíveis cortes de postos de trabalho em toda a cadeia produtiva do arroz.
Medidas do Estado e do governo federal
Entre as iniciativas recentes, Gross citou uma medida anunciada pelo governo do Rio Grande do Sul que autoriza o uso dos recursos da Taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura (Taxa CDO), administrada pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). Os recursos poderão ser destinados ao financiamento, subvenção ou apoio a programas e ações de fomento ao setor orizícola.
Segundo o presidente da associação, se aplicada, a medida pode auxiliar no custeio do transporte da produção até os portos para exportação. “É um fator positivo, mas não pode ficar só no papel”, reforçou, ao destacar que a iniciativa, por si só, não resolve os problemas estruturais do setor.
No âmbito federal, Gross afirmou que o governo está comprando arroz dos produtores a preços acima do mercado, porém ainda insuficientes para cobrir os custos de produção. De acordo com sua avaliação, outras ações anunciadas também não são capazes de reverter o quadro atual.





