Violência contra mulher

Maioria das vítimas de feminicídio nunca denunciou agressor, diz secretária da Mulher

Fábia Richter alerta para subnotificação e propõe atuação integrada entre saúde, municípios e segurança

A secretária estadual da Mulher do RS, Fábia Richter, afirmou que a prevenção é o principal caminho para reduzir os casos de feminicídio no Rio Grande do Sul. Em entrevista concedida nesta semana, em Camaquã, ela destacou que a maioria das mulheres assassinadas não havia registrado ocorrências nem buscado ajuda do poder público.

Maioria das vítimas de feminicídio nunca denunciou agressor, diz secretária da Mulher
Maioria das vítimas de feminicídio nunca denunciou agressor, diz secretária da Mulher. Foto: Diego Costa | Acústica FM

Receba todas as notícias da Acústica no seu WhatsApp tocando aqui!

Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública, 80 mulheres foram mortas no Estado em 2025. Destas, 75 não tinham feito boletim de ocorrência, nem mesmo por ameaça. Para a secretária, os números revelam um problema oculto, que permanece dentro das casas e muitas vezes passa despercebido pela própria família.

Enfermeira de formação e com trajetória na atenção primária à saúde, Fábia disse que a política pública não pode atuar apenas depois da agressão. A orientação, segundo ela, é identificar sinais de risco antes que a violência chegue ao extremo.

“Não podemos olhar só para o momento do crime. Precisamos agir antes”, afirmou.

A secretaria está elaborando notas técnicas e documentos orientativos para os municípios. Um dos instrumentos é o Índice Municipal de Risco de Feminicídio, que deve ser apresentado em março. O indicador considera a existência e o funcionamento de organismos de políticas para mulheres, como conselhos, coordenadorias e centros de referência.

Outro foco é a integração entre saúde, assistência social e segurança pública. Agentes comunitários, professores e profissionais do Programa Primeira Infância Melhor (PIM) estão sendo orientados a sinalizar situações de risco às redes de proteção locais.

Em Camaquã, por exemplo, foram registradas cerca de 180 ameaças por ano contra mulheres, segundo dados oficiais. O número, na avaliação da secretária, está longe de refletir a realidade.

“A ameaça quase nunca é registrada. O medo, a vergonha e a culpa ainda silenciam as vítimas”, disse.

Fábia ressaltou que a maioria dos feminicídios ocorre após o fim do relacionamento. São casos em que o agressor não aceita a separação e tenta manter controle sobre a mulher, seja por meio de perseguição, ameaças ou violência psicológica.

“Não existe posse. Ninguém é dono de ninguém”, afirmou.

A secretária também defendeu que os homens passem a ser incluídos nas políticas de prevenção. Para ela, a violência doméstica é resultado de relações desequilibradas e de modelos masculinos que já não correspondem às mudanças sociais.

“As mulheres mudaram. Parte dos homens não conseguiu acompanhar”, disse.

Entre os sinais de alerta, ela citou o controle sobre roupas, amizades e celular, além do isolamento da mulher e da desqualificação constante.

“Isso não tem a ver com a mulher. Tem a ver com a insegurança do homem”, afirmou.

A secretaria mantém um telefone 0800, com atendimento 24 horas, para orientar mulheres em situação de risco. Em casos extremos, o Estado pode retirar a vítima do endereço conhecido e levá-la para outra região, em sigilo.

Para Fábia Richter, a violência doméstica não é apenas um problema policial ou jurídico, mas também de saúde pública.

“Uma mulher violentada adoece física e mentalmente. E um ambiente violento afeta crianças e idosos. Prevenir é proteger toda a família”, concluiu.

Tags: Ações, Prevenção, Rio Grande do Sul, Violência contra mulher