Uma sequência de tragédias no atendimento obstétrico chocou o Estado do Rio Grande do Sul e acendeu o alerta vermelho sobre a conduta de profissionais de saúde em maternidades gaúchas. A médica ginecologista e obstetra Camila Ventura Lanzarine, formada em 2013 e com histórico de atuação em diversos municípios, incluindo Tapes, Pantano Grande, Antônio Prado, Glorinha, Ipê e Ivoti, foi indiciada pela Polícia Civil pelos crimes de homicídio doloso (quando há intenção ou assume-se o risco de matar) e aborto provocado por terceiro sem o consentimento da gestante.

A apuração policial decorre do dramático falecimento de Franciele Lentes de Oliveira, de 31 anos, e de seu filho recém-nascido, Apolo, ocorridos no mês de setembro na Santa Casa de Caridade de Bagé, na região da Campanha.
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12 horas de agonia e denúncia de violência obstétrica cometida pela médica
Segundo relatos da família à Polícia Civil, Franciele deu entrada no hospital e permaneceu por mais de 12 horas em trabalho de parto, enfrentando severas complicações. Familiares denunciam que a vítima foi submetida a episódios graves de negligência e violência obstétrica durante o atendimento prestado pela profissional.
O recém-nascido Apolo era o primeiro filho de Franciele com o companheiro, Jonathan, que acompanhava com expectativa o nascimento do menino. Franciele também deixa um filho de 12 anos.
Diante do conjunto de provas reunido no inquérito, o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS) chegou a requerer a prisão preventiva da investigada. Embora o Poder Judiciário tenha indeferido o pedido de prisão, determinou a suspensão cautelar do exercício da medicina da profissional.
Segunda morte sob investigação e registro suspenso no Cremers
Os desdobramentos do caso revelaram que a atuação da médica também é alvo de apuração no falecimento de outro recém-nascido, ocorrido no mesmo final de semana. Bianca Dufloch, mãe da pequena Aurora, relatou à polícia que buscou socorro na Santa Casa com 23 semanas de gestação, apresentando fortes dores e sangramento.
Segundo o depoimento da mãe, mesmo ciente do histórico de gravidez de risco e infecção urinária, a médica não teria solicitado exames emergenciais de imediato. A paciente permaneceu internada em observação até a troca de plantão. O médico seguinte constatou um quadro de infecção grave e realizou uma cesariana de emergência. A bebê Aurora nasceu com vida, mas não resistiu e faleceu cerca de duas horas após o parto.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) confirmou a abertura de sindicâncias sob sigilo para apurar a conduta ética e profissional de Camila Ventura Lanzarine. Em consulta pública ao sistema do Cremers, o status da inscrição da médica já consta formalmente como suspenso. Para o MPRS, os elementos reunidos sustentam a hipótese de dolo eventual, já que a investigada teria tomado conhecimento do risco concreto à vida da mãe e do bebê e, ainda assim, persistido na conduta, aceitando a possibilidade dos resultados fatais.




