Investigação

Oficiais negam que havia autorização para entrada em sítio onde agricultor foi morto

Agricultor Marcos Nörnberg foi atingido por ao menos sete tiros durante ação da BM em Pelotas

A investigação da Polícia Civil concluiu, em relatório preliminar, que o sítio do agricultor Marcos Nörnberg, morto em 15 de janeiro, em Pelotas, é diferente da residência descrita por suspeitos como esconderijo de uma quadrilha de roubos de veículos. A ação foi realizada por policiais da Brigada Militar durante a madrugada, sem mandado judicial. O produtor rural foi atingido por ao menos sete disparos após reagir à abordagem. Dezoito policiais já prestaram depoimento e a apuração aponta contradições nas versões apresentadas.

MPRS denuncia sete PMs pela morte de agricultor em Pelotas
Foto: Arquivo pessoal/Divulgação.

Segundo o relatório, há diferenças estruturais, funcionais e ambientais entre o sítio invadido e o imóvel descrito por dois jovens presos com caminhonetes roubadas. A informação inicial partiu de autoridades do Paraná e indicava que a propriedade serviria de refúgio para uma quadrilha.

A descrição repassada pelos suspeitos não corresponde ao local onde vivia Nörnberg. As estufas de morango e os veículos encontrados na área são distintos dos mencionados nos relatos. Ainda assim, policiais do Batalhão de Choque e do 4º Batalhão de Polícia Militar decidiram entrar na propriedade por volta das 3h, na expectativa de efetuar prisões em flagrante.

Nenhum oficial participou diretamente da incursão no sítio

Os 18 brigadianos envolvidos foram ouvidos pela Polícia Civil e pela Corregedoria da corporação. De acordo com pessoas que tiveram acesso aos depoimentos, nenhum oficial participou diretamente da incursão no sítio. Apenas sargentos e soldados ingressaram na propriedade. Um tenente permaneceu em uma viatura a cerca de 500 metros do local.

Receba todas as notícias da Acústica no seu WhatsApp tocando aqui!

Em seu depoimento, o oficial afirmou que telefonou para um major do 4º BPM, que por sua vez consultou o comandante do batalhão, um tenente-coronel. A autorização teria sido concedida para realizar uma averiguação. O próprio tenente declarou que preferia que a ação ocorresse durante o dia, devido aos riscos da operação noturna.

De acordo com informações divulgadas por GZH, tanto o tenente quanto o major afirmaram que não houve autorização para invadir a residência. Segundo eles, o efetivo mobilizado visava garantir reação em caso de confronto com criminosos armados.

Contradições nos depoimentos

Um sargento que participou do tiroteio apresentou versão diferente. Ele teria declarado, segundo informações de GZH, que o planejamento previa a entrada do Batalhão de Choque pela frente da casa e dos policiais do 4º BPM pelos fundos. A estratégia teria sido executada dessa forma.

O mesmo sargento disse que a intenção era que os ocupantes percebessem a presença policial e se rendessem. Os policiais não utilizaram viaturas para se aproximar, mas usaram lanternas e gritaram “polícia”. Investigadores ainda apuram se a tática era de aproximação silenciosa ou ostensiva.

Todos os envolvidos afirmam que Nörnberg disparou primeiro, com uma carabina registrada para defesa da propriedade. Persistem dúvidas, porém, sobre um disparo feito após o cessar inicial do confronto. Um dos policiais relatou: “Mexeu a cabeça”, antes de efetuar um tiro final. Ele afirmou ter acreditado que o agricultor voltaria a atirar.

Policiais respondem dois inquéritos 

Os policiais respondem a dois inquéritos. Um tramita na própria corporação, para apurar eventuais falhas na abordagem. Outro investiga a morte do agricultor e pode resultar em denúncia por homicídio.

O comando da Brigada Militar reconheceu que a vítima não tinha ligação com a quadrilha investigada. A reconstituição dos fatos foi anunciada pela Corregedoria-Geral como etapa decisiva para esclarecer as divergências nos depoimentos e definir responsabilidades.

A investigação segue em andamento.