Em 30 de julho, um terremoto de 8,8 graus na escala Richter atingiu a Península de Kamchatka, no extremo leste da Rússia. O tremor provocou alertas de tsunami em países como Rússia e Japão. Na ilha japonesa de Hokkaido, a cidade de Urakawa chegou a emitir ordem de retirada máxima para mais de 10 mil moradores.
Não é algo inédito. Kamchatka é conhecida por sua intensa atividade sísmica e vulcânica. A região fica em uma zona de subducção, onde uma placa tectônica se desloca para debaixo de outra, o que favorece terremotos frequentes e de grande magnitude.
Esse evento entrou para a história como o sexto maior já registrado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Mas não foi a primeira vez que a região viveu algo assim. Em 1952, outro terremoto, ainda mais forte — magnitude 9,0 — sacudiu Kamchatka. A diferença é que, naquela época, o mundo quase não soube o que aconteceu.
O terremoto proibido de 1952
O tremor de 5 de novembro de 1952 foi detectado por sismólogos ao redor do planeta. No Havaí, ondas de 2,4 metros chegaram horas depois. Apesar das evidências apontarem o epicentro para Kamchatka, a União Soviética permaneceu em silêncio.
O motivo? Plena Guerra Fria. Qualquer sinal de vulnerabilidade poderia ser explorado por inimigos e até por aliados. Se um tsunami fosse capaz de arrasar cidades, imagine o que um ataque militar poderia causar. Assim, o governo preferiu esconder a tragédia.
A imprensa soviética não publicou nada, nem mesmo o Pravda, principal jornal do país. A sismóloga Joanne Bourgeois, da Universidade de Washington, afirmou em 2012 que a URSS possuía um avançado programa de pesquisas sísmicas, embora não reconhecesse oficialmente a teoria das placas tectônicas até os anos 1980. No entanto, os dados sobre Kamchatka e as Ilhas Curilas jamais vieram a público na época.
Tragédia revelada
Somente nos anos 2000 arquivos começaram a ser abertos, revelando que o vilarejo de Severo-Kurilsk, na Ilha de Paramushir, foi o mais atingido. Os cerca de seis mil moradores acordaram com o tremor.
Soldados na costa avistaram o tsunami e, com tiros, tentaram alertar a população. Muitos se refugiaram em áreas altas, o que reduziu o número de vítimas na primeira onda.
O problema veio depois. Sem saber que tsunamis podem ocorrer em sequência, os moradores retornaram às casas. A primeira onda tinha cerca de um metro, mas a segunda chegou a 12 metros de altura, arrasando a cidade. Uma terceira ainda levou o que restava em pé.




