planejamento climático

Especialista defende inclusão da atual realidade climática no planejamento urbano dos municípios

Regras urbanas atualizadas influenciam prevenção de desastres e podem atrair novos investimentos

A capacidade dos municípios de se adaptar a eventos climáticos extremos passou a influenciar diretamente a atração de investimentos e o desenvolvimento econômico. Em entrevista à Rádio Acústica FM, o professor de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Marcelo Dutra da Silva, afirmou que a revisão dos planos diretores é hoje uma das principais necessidades das cidades da Zona Sul do Rio Grande do Sul diante do chamado “novo normal climático”.

Regras urbanas atualizadas influenciam prevenção de desastres e podem atrair novos investimentos. Imagem de alagamento no bairro Getúlio Vargas. Foto: Arquivo/Dezembro de 2025.
Regras urbanas atualizadas influenciam prevenção de desastres e podem atrair novos investimentos. Imagem de alagamento no bairro Getúlio Vargas. Foto: Arquivo/Dezembro de 2025.

Segundo o professor, especialista em ESG (Ambiental, Social e Governança), enchentes, ondas de calor, ventos fortes e chuvas intensas deixaram de ser exceção e precisam ser considerados no planejamento urbano. Para ele, cidades que não atualizarem seus instrumentos legais tendem a ampliar riscos sociais, econômicos e ambientais.

Marcelo Dutra destacou que o plano diretor é o principal documento de organização e desenvolvimento de um município, mas muitos estão defasados em relação à realidade climática atual. “Precisamos mapear as áreas de vulnerabilidade, quantas pessoas, quantos negócios estão em áreas de riscos, onde estão nossas áreas mais seguras para que sejam ocupadas e desenvolvidas”, explicou.

De acordo com o professor, a ausência desse mapeamento dificulta tanto a prevenção de desastres quanto a atração de novos empreendimentos. Ele alertou que, em alguns casos recentes, revisões mal conduzidas acabaram agravando problemas urbanos, quando o objetivo deveria ser reduzir riscos e aumentar a resiliência das cidades.

Resiliência climática como fator de atração de investimentos

Para Dutra, a preparação urbana passou a ser um critério econômico. “Quanto mais preparadas nossas cidades, mais fácil será atrair investimentos”, afirmou. Na avaliação do professor, a resiliência climática está se tornando uma “moeda”. “A capacidade de lidar com eventos extremos fará todo sentido para novos investimentos”.

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Empreendedores avaliam, cada vez mais, se o território oferece segurança climática para operações de longo prazo. “O empreendedor que quer hoje eleger uma região para um grande empreendimento que vai gerar emprego e renda, não pensa só se a região vai oferecer benefícios especiais”, disse, ao ressaltar a importância de também garantir “segurança climática”.

Vegetação urbana e ocupação do solo

Entre as medidas que devem constar nos planos diretores revisados, o professor citou a ampliação da vegetação nos centros urbanos, como forma de reduzir ilhas de calor e minimizar impactos de chuvas intensas. Ele ponderou, porém, que a arborização precisa seguir critérios técnicos. “A gente tem visto muito a necessidade de se ter vegetação no contexto urbano”, afirmou, ao reforçar que o plantio não pode ser feito “de qualquer jeito”, sendo necessário escolher espécies adequadas para cada local.

Para Dutra, regras claras sobre ocupação do solo, drenagem urbana e proteção de áreas sensíveis são fundamentais para evitar alagamentos, destelhamentos e prejuízos econômicos recorrentes.

Economia sustentável e governança regional

A discussão sobre adaptação climática e revisão dos planos diretores está inserida no trabalho da Câmara Técnica de Sustentabilidade da Associação dos Municípios da Zona Sul (Azonasul). A iniciativa reúne 22 representantes da academia e do setor produtivo e integra a Agência de Desenvolvimento da Região Sul, criada após os eventos climáticos extremos que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.

Os encontros mensais ocorrem em Pelotas e têm como foco temas como transição energética, energia solar, eólica, onshore e offshore, e combustíveis renováveis. Segundo o professor, a aproximação entre pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), da Furg e empresas de diferentes setores busca alinhar desenvolvimento econômico e sustentabilidade.

ESG e planejamento como estratégia de defesa

Para Marcelo Dutra da Silva, a atualização dos planos diretores e a adoção de boas práticas ESG são estratégias de proteção para municípios e empresas. “As estratégias de sustentabilidade e boas práticas ESG são estratégias de defesa do negócio”, afirmou. Segundo ele, práticas ambientais adequadas reduzem riscos de desastres e aumentam a segurança jurídica e econômica.

Na avaliação do professor, resistir a essas mudanças significa perder competitividade. Para ele, a revisão dos planos diretores, alinhada à adaptação climática, será decisiva para definir quais cidades conseguirão crescer de forma sustentável e atrair investimentos em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas.

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