A preparação das cidades para enfrentar eventos climáticos extremos passou a pesar diretamente na decisão de novos investimentos públicos e privados. Esse foi o alerta feito pelo professor de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Marcelo Dutra da Silva, em entrevista à Rádio Acústica FM. Para o professor, a resiliência climática deixou de ser apenas uma pauta ambiental e se tornou um ativo econômico, capaz de definir o futuro de municípios e empresas da Zona Sul do Rio Grande do Sul.

De acordo com o professor, especialista em ESG (Ambiental, Social e Governança), a capacidade de uma cidade lidar com enchentes, ondas de calor, ventos fortes e outros eventos extremos influencia diretamente a atração de investimentos. “Quanto mais preparadas nossas cidades, mais fácil será atrair investimentos”, afirmou.
Para Dutra, a resiliência climática está se tornando uma “moeda” e “a capacidade de lidar com eventos extremos fará todo sentido para novos investimentos”. O empreendedor, ao escolher uma região para instalar um grande empreendimento, avalia não apenas incentivos fiscais ou infraestrutura logística, mas também a segurança climática do território. “O empreendedor que quer hoje eleger uma região para um grande empreendimento que vai gerar emprego e renda, não pensa só se a região vai oferecer benefícios especiais”, disse, ao destacar a necessidade de garantir “segurança climática”.
Economia sustentável como virada de chave regional
O tema é o eixo central da Câmara Técnica de Sustentabilidade, instalada na Associação dos Municípios da Zona Sul (Azonasul). A iniciativa reúne 22 representantes da academia e do setor produtivo, com foco em transição energética, energia solar, eólica, tanto onshore quanto offshore, e combustíveis renováveis.
A câmara integra a Agência de Desenvolvimento da Região Sul, estrutura criada pela Azonasul após os eventos climáticos extremos que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Os encontros ocorrerão mensalmente na sede da agência, em Pelotas.
Segundo Marcelo Dutra da Silva, que coordena o projeto, a Zona Sul reúne condições estratégicas para avançar na economia verde. A proposta é aproximar pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Furg de empresas e entidades de diferentes setores, inclusive do agronegócio. Para ele, a economia sustentável pode ser a “virada de chave” para o desenvolvimento regional, ao combinar inovação, geração de empregos e atração de capital.
ESG como estratégia de defesa dos negócios
Na avaliação do professor, sustentabilidade deixou de ser um diferencial e passou a ser uma estratégia de sobrevivência. “As estratégias de sustentabilidade e boas práticas ESG são estratégias de defesa do negócio”, afirmou. O especialista defende que empresas e municípios precisam se adaptar ao que chama de “novo normal climático”, imposto tanto pela realidade ambiental quanto pelas exigências do mercado.
Segundo Dutra, práticas ambientais responsáveis reduzem riscos de desastres e de envolvimento em escândalos climáticos. Essas ações se somam aos pilares social e de governança do ESG, que incluem boas condições de trabalho, qualidade de vida para a população e gestão transparente. “Fica um ambiente de negócio mais seguro”, explicou. Para ele, resistir a esse movimento é perder tempo, pois a mudança já está em curso.
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Planos diretores e adaptação ao “novo normal climático”
Outra frente considerada decisiva é a adaptação climática nos municípios. O professor alertou para a urgência de revisar os planos diretores, principais instrumentos de ordenamento urbano das cidades. Segundo Dutra, muitos documentos não refletem mais a realidade climática atual, marcada por chuvas intensas, alagamentos, destelhamentos e impactos econômicos recorrentes.
“Precisamos mapear as áreas de vulnerabilidade, quantas pessoas, quantos negócios estão em áreas de riscos, onde estão nossas áreas mais seguras para que sejam ocupadas e desenvolvidas”, afirmou. O professor também destacou a importância da vegetação no ambiente urbano, defendendo a arborização como estratégia de adaptação. No entanto, fez um alerta: o plantio precisa seguir critérios técnicos, com espécies adequadas para cada local.
Para o professor, situações recentes acabaram piorando alguns planos diretores, quando o caminho deveria ser o oposto. A revisão, segundo ele, é fundamental para garantir desenvolvimento sustentável, reduzir riscos e aumentar a capacidade das cidades de atrair investimentos em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas.
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