A ampliação da vegetação urbana, aliada a pequenas intervenções de drenagem, é uma das estratégias mais eficazes e acessíveis para reduzir alagamentos em cidades como Camaquã. A avaliação é do professor Marcelo Dutra, doutor em ciência, docente de ecologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e integrante de projetos de sustentabilidade no IFSul.

Em entrevista à Rádio Acústica FM nesta quinta-feira (18), Dutra explicou que a adoção do conceito de “cidade-esponja” exige planejamento integrado, baseado em evidências científicas e no mapeamento prévio das áreas de risco. A proposta busca fazer com que o solo urbano volte a absorver parte da água da chuva, reduzindo a sobrecarga da rede pluvial e os impactos das precipitações intensas.
O que é o conceito de cidade-esponja
De acordo com o especialista, uma cidade-esponja não se resume a intervenções pontuais. “Não pode alcançar apenas uma ou duas ruas”, afirmou. A ideia central é reduzir a impermeabilização excessiva, criada ao longo de décadas, que impede a infiltração da água no solo.
A estratégia combina diversas medidas, como aumento da cobertura vegetal, criação de áreas de retenção temporária e adequações no uso do solo urbano. Aplicadas em conjunto, essas ações retardam o escoamento da água da chuva e diminuem o risco de alagamentos.
Planejamento urbano precisa mudar
Para Dutra, os eventos extremos registrados desde 2024 deixaram evidente a necessidade de rever a forma de governar os municípios. O professor defende revisões nos Planos Diretores, considerando a nova realidade climática.
“Nada é impossível do ponto de vista da adaptação, mas exige recursos e planejamento”, disse. Segundo o professor, sem uma política de Estado, que ultrapasse gestões específicas, as soluções tendem a ser fragmentadas e ineficazes.
Menos concreto, mais infiltração
Entre as ações prioritárias, Dutra destaca a redução da impermeabilização em áreas suscetíveis a alagamentos. Nessas regiões, o Plano Diretor deve limitar mudanças na cota dos terrenos e restringir grandes áreas pavimentadas.
Para novos empreendimentos, o especialista defende projetos com verticalização, drenagem garantida por vegetação, áreas verdes e “pulmões d’água”, estruturas que armazenam rapidamente o excesso de chuva. “Historicamente assumimos a ideia de deixar tudo cinza. Agora, o desafio é desmobilizar parte do que já foi construído e renaturalizar”, afirmou.
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Pequenas ações podem gerar mais resultado
O professor reforça que não existe solução única. Um conjunto de medidas de menor porte pode ser mais eficiente do que uma grande obra isolada e de alto custo. “Não se trata de barrar o desenvolvimento, mas de evitar prejuízos maiores no futuro”, disse.
Dutra também comparou o cenário urbano ao rural. No interior, o problema recorrente é a falta de chuva ou a erosão causada por precipitações intensas. Segundo o especialista, o setor rural é hoje um dos que mais adotam práticas de conservação do solo, justamente por perceber os riscos econômicos da degradação ambiental.
Camaquã aposta em alternativa prevista em modelos de cidade-esponja
A Prefeitura de Camaquã pretende adotar, a partir de 2026, uma das estratégias associadas ao conceito de cidade-esponja. O projeto prevê a adaptação de duas vias com sistemas que retardam a chegada da água da chuva à rede pluvial.
A solução inclui drenos laterais com pedra graduada, tubos perfurados e tampas com orifícios, capazes de reter parte da água antes do escoamento. Segundo o prefeito Abner Dillmann (PSDB), a medida tende a gerar impacto positivo, mas não substitui as obras estruturais previstas no estudo hidrológico do município.

Bacias de contenção são consideradas essenciais
Em entrevista à Rádio Acústica FM, Abner Dillmann reconheceu que as mudanças climáticas exigem um novo padrão de planejamento urbano, integrando meio ambiente e infraestrutura. Segundo o prefeito, apenas a execução integral do estudo hidrológico permitirá uma solução duradoura para os alagamentos recorrentes.
Entre as principais obras previstas estão as bacias de contenção. O estudo indica a necessidade de ao menos cinco estruturas desse tipo em pontos estratégicos da cidade. As bacias armazenam temporariamente grandes volumes de água da chuva, reduzem a velocidade do escoamento e liberam o volume de forma controlada.
Além de prevenir enchentes, essas estruturas ajudam a reter sedimentos e resíduos, melhorando a qualidade da água em sangas e cursos d’água urbanos.
Efeito sistêmico vai além do bairro
Segundo o prefeito, o impacto das bacias de contenção não se limita ao local onde são construídas. Uma estrutura em um bairro pode reduzir alagamentos em outras regiões, ao desacelerar o volume de água que chega à rede.
Uma bacia nas proximidades do bairro Floresta, por exemplo, poderia amenizar problemas locais e retardar o fluxo para a Sanga do Passinho, no bairro Getúlio Vargas, beneficiando diretamente áreas como a avenida Presidente Vargas e indiretamente toda área central e às margens da sanga.
Experiências de outras cidades reforçam a viabilidade
Projetos semelhantes já estão em execução em municípios brasileiros. Em Juiz de Fora, Minas Gerais, a prefeitura garantiu junto ao governo federal R$ 356 milhões para obras de macrodrenagem e esgotamento sanitário. Um dos reservatórios previstos terá 11 metros de profundidade e capacidade para quase 50 mil metros cúbicos de água. Sobre a estrutura, será implantado um campo de futebol com gramado sintético.
Cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília também utilizam bacias de contenção integradas aos sistemas de drenagem pluvial como estratégia permanente de prevenção a enchentes, combinando infraestrutura, áreas verdes e uso público do espaço urbano.
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